Arder a Palavra, Lugar do Desenho, Valbom, Gondomar, 2026

In Arder a Palavra, Isabel Carvalho presents a set of ceramic panels resulting from research that combines science and artistic practice, reviving traditional knowledge in which vegetal ashes were used in the formulation of ceramic glazes. The ashes chosen for the project were mainly collected in areas affected by the fires that occurred during the summer of 2025 in the Douro region, one of the areas that suffered the greatest environmental impact that year. The research initially focused on the behaviour of vegetal material in vitrification processes, analysing how different species — such as oak, pine and eucalyptus, present in varying proportions according to their flammability — produced specific ceramic responses. However, the work gradually shifted in another direction, based on practice and the realisation that, in a real context, the strict separation of species proves to be chimerical outside laboratory conditions. The contamination between materials — since fire indiscriminately converts all “living” matter into ashes — as well as the subsequent impregnation of the air, soil and waterways, became a structural part of the project itself. In this way, the research expanded beyond continuous technical advancement and improvement, taking on a symbolic dimension inseparable from what we see as environmental collapse. For Arder a Palavra, the ceramics workshop at Lugar do Desenho opened up as a space for situated production. Its unique conditions further reinforced the notion of contamination as an operative concept, both through the occasional use of glazes and kilns belonging to Júlio Resende, and through the choice of drawing — a central area in this institution — as the matrix for the process of transposing the material paths onto the panel support. In fact, the exhibition shows a sensitive attention to natural cycles and landscape transformations, articulating artistic practice and ecological reflection around the ecosystems of the Douro River, with the panels being taken as devices of inscription and memory.


Arder a Palavra, Lugar do Desenho, Valbom, Gondomar, 2026

Em Arder a Palavra, Isabel Carvalho apresenta um conjunto de painéis cerâmicos resultantes de uma investigação que articula ciência e prática artística, recuperando saberes da tradição em que cinzas vegetais eram usadas na formulação de esmaltes cerâmicos. As cinzas eleitas para o projeto foram sobretudo recolhidas em áreas atingidas pelos incêndios decorridos durante o verão de 2025 na região do Douro, uma das zonas que, nesse ano, registou maior impacto ambiental. A pesquisa incidiu inicialmente sobre o comportamento do material vegetal em processos de vitrificação, analisando a artista de que modo espécies distintas — como o carvalho, o pinheiro e o eucalipto, presentes em proporções variáveis segundo a sua capacidade inflamável — produziam respostas de esmaltagem específicas. Todavia, o trabalho deslocou-se progressivamente para outra direção, fundada na prática e na constatação de que, em contexto real, a separação rigorosa das espécies se revela quimérica fora de condições laboratoriais. A contaminação entre matérias — uma vez que o fogo indistintamente converte todo o “vivo” em cinzas —, assim como a subsequente impregnação do ar, dos solos e dos cursos de água, passou a integrar estruturalmente o próprio projeto. Deste modo, a investigação expandiu-se para além do contínuo avanço e aprimoramento técnico, assumindo uma dimensão simbólica indissociável daquilo a que assistimos como colapso ambiental. Para Arder a Palavra, a oficina de cerâmica do Lugar do Desenho abriu-se como espaço de produção situada. As suas condições singulares reforçaram ainda mais a noção de contaminação enquanto conceito operativo, quer pela utilização pontual de esmaltes e fornos pertencentes a Júlio Resende, quer pela eleição do desenho — área central nesta instituição — como matriz do processo de transposição imagética dos percursos matéricos para o suporte dos painéis. No exposto, manifesta-se, portanto, uma atenção sensível aos ciclos naturais e às transformações da paisagem, articulando prática artística e reflexão ecológica em torno dos ecossistemas do rio Douro, podendo os painéis ser tomados como dispositivos de inscrição e de memória.

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